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Lembram-se daquele senhor que caminha arrastando os ‘chinelos
vãos-de-dedos’, conhecido por Wardemá? Pois bem: Waldemar Francisco
Nery, o Waldemar do Chapisco (nas décadas de 50 e 60, Bar Pindorama),
acaba de completar 78 anos de idade, dia 19.
Waldemar Nery é casado com dona Agilse Magalhães, desde 1953. A esposa,
que completou 76 anos dia 08 de dezembro, sempre foi o braço-direito do
comerciante. Os filhos, o braço esquerdo, as pernas, o coração e os
pulmões do bar. E, haja pulmão. Correria diária desde os tempos do
Pindorama, em 1958.
Anote aí: pelas cadeiras do Pindorama e, de 1978 em diante,
Mini-Churrascaria Chapisco, se assentaram nomes como Ferraz Caldas,
Renato Azeredo, Carlos Mosconi, Roberto Junqueira e Sebastião Navarro
(Poços de Caldas), Itamar Franco, Chico Viana, Dirceu de Freitas, Vilson
Carvalho, Ademar de Barros, Nelsinho e Miltinho (família ‘Nete’) e
outras dezenas de nomes do MDB e da Arena. As duas legendas dominavam o
cenário político das Minas Gerais e do Brasil.
O clima de rivalidade política nas imediações do estabelecimento às
vezes fervia. Fervia e transbordava, devido à proximidade do ponto de
ebulição de cabos-eleitorais e os mestres da oratória. Até tiro com arma
de fogo chegou a ser disparado por aquelas bandas.
Escudeiro fiel do ex-prefeito e ex-deputado Jorge Eduardo Vieira de
Oliveira, o Dr. Jorge, líder máximo do antigo MDB (Movimento Democrático
Brasileiro), em Machado, Waldemar não modificou seu modo de pensar e
agir, apesar de parte do atual PMDB não manter a ideologia das velhas
‘raposas’. – O rosto sisudo e os ‘chinelos de dedo’ (estilo havaianas)
continuam os mesmos. Os cabelos estão ralos; a vista cansada. Mas,
continua a disposição para caminhar, mesmo que devagar, todos os dias
pela pracinha de São Benedito.
O sorriso traz à tona histórias emocionantes do bar que serviu a
caixeiros-viajantes e a políticos e magistrados. Dr. Reinaldo Ximenes,
hoje Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais,
quando juiz em Machado, no início dos anos 80, fazia suas refeições ali.
Airton Rodrigues, que chegou a gravar capítulos de seu famoso programa
de televisão “Almoço com as Estrelas” (extinta TV Tupi), levava da
cozinha do Chapisco a comida para os artistas. Atores e atrizes
saboreavam quitutes como frango frito, frango com farofa, frango ao
molho pardo, rabada, picanha na chapa, peru, leitoa assada e à pururuca.
Lolila Rodrigues (primeira esposa de Airton), Perla, Ronie Von, Jane e
Herondy, Sérgio Reis, Agnaldo Timóteo, Aguinaldo Raiol, Tony Tornado,
Jair Rodrigues, Moacir Franco se esbaldaram nos temperos de dona Agilse.
– Mais tarde, Airton chegou a freqüentar o recinto acompanhado de
Simone, sua segunda esposa. – Gostava de ficar a sós, com Simone.
O grandalhão Sérgio Reis tem uma passagem interessante entre os Nery:
certa vez, ganhou uma garrafa de pinga de presente. A garrafa estava
numa prateleira, fora do alcance da maioria das pessoas. Enquanto
Waldemar e os filhos procuravam uma banqueta para subir, Sérgio Reis
esticou o braço e apanhou o vasilhame. Quando o banquinho chegou, Sérgio
Reis já tomava um gole.
Os cineastas machadenses, Hélio D’ Andréa, Arielce Vítor Campos e Fausto
Vasconcelos gravaram cenas do filme “Bandidos da Serra Baixa” dentro do
bar. Montavam máquina filmadora em cima de uma mesa de sinuca e deixavam
os atores à vontade.
A tradição do Chapisco está presente até hoje. Os filhos Luiz Carlos e
Marquinho mantêm a Lanchonete Chapisquinho. A estrutura dos fornos da
Mini-Churrascaria Chapisco, na avenida Santa Cruz, é utilizada para
assar as pizzas, que têm o ‘selo’ Chapisquinho.
São filhos do casal: Sílvia Helena, Selma Maria, Luiz Carlos, Marcos
Vinícius, José Cláudio e Clayton Nery.
Bem disposta, dona Agilse conta que o marido adorava pescar. É um dos
fundadores do “Clube Vá Para Pesca”, que faz aventuras, há décadas, nos
rios de Mato Grosso, sempre durante os meses de setembro. – Os bichos da
região do Pantanal Matogrossense também conhecem o barulho do arrastar
de chinelos de Seu Waldemar.
Uma pena a família não ter preservado fotos para ilustrar tantos fatos.
Mas, essas passagens nem mesmo o tempo será capaz de apagá-las.
O estabelecimento comercial sempre foi administrado pela família. Em
1977, experimentaram montar barraca na Festa São Benedito. Não deu
certo, pois os clientes ‘exigiam’ que o tradicional estabelecimento, à
avenida Santa Cruz, continuasse funcionando normalmente.
O ponto de encontro da sociedade machadense também servia marmitex e
atendia ‘mensalistas’. Abria às seis da manhã e fechava as portas tarde
da noite.
Na porta, havia parada de ônibus das jardineiras que saíam da praça
Antônio Carlos com destino a Poços de Caldas, pela antiga estrada de
terra.
O pessoal do bairro da Conceição esperava condução ali.
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